As coleções da ModaLisboa e Portugal Fashion que me ficaram na memória

Pela primeira vez em muito tempo não escrevi logo a seguir aos desfiles, não pus em palavras as primeiras impressões do que vi desfilar.

E agora, passados três meses do que vi, resta-me confiar na memória, nas notas que sempre rabisco às escuras, e nas imagens que circulam na internet. Mas o mais importante de tudo é a memória, é na memória que ficaram os detalhes que interessam destacar, o filtro do tempo elimina sempre o dispensável, e pela primeira vez vou escrever sobre moda com esse filtro posto.

A primeira coisa que essa barreira temporal me mostra é que as propostas dos jovens designers foram, em geral, mais interessantes do que as de algumas marcas já estabelecidas. Claro que existem exceções e também algumas boas surpresas entre os nomes mais antigos da moda nacional.

O caminho certeiro de João Magalhães e Constança Entrudo

O périplo da moda em solo português iniciou-se em Lisboa, com a apresentação de João Magalhães, uma performance que uniu o mundo digital e físico, com a irreverência que marca todas as apresentações do designer. João Magalhães tem vindo a crescer enquanto designer com coleções cada vez mais coesas, onde a experimentação ganhou uma linha condutora. Nesta coleção esse trabalho mais unificado é visível através das cores e materiais, mas também de alguns detalhes que fazem com que as peças se relacionem. A cor, o excesso e os detalhes inacabados, parecem estar a tornar-se três dos pilares de uma marca, que se afasta cada vez mais do lugar de experimentação com que teve início, estando agora a traçar um caminho mais sólido, onde não se perdeu o lugar para a inovação, a extravagância e o exagero.

Quem também mantem os pés em terra firme, caminhando sem desvios é Constança Entrudo, que mais uma vez provou que está no caminho certo para se tonar num dos nomes incontornáveis da moda nacional. Desta vez, a coleção apresentou-se mais festiva, desconstruindo os elementos básicos do vestuário de noite, como os drapeados em seda, que surgiram em diversas peças, criando volumes inesperados. A proporção também foi desafiada sobretudo nas peças acolchoadas, que além da dimensionalidade real tinham um estampado pensado propositadamente para criar uma ilusão de ótica. Dos estampados destaco o top que ao longe parece de renda, mas que olhado de perto não passa de o desenho de uma renda a caneta.

Constança Entrudo

Sem rendas, mas com muitos bordados chegou a Béhen, que mais uma vez fez do bordado da Madeira o elemento principal da coleção. O que começou pela reutilização de toalhas e peças de enxoval, onde este bordado era abundante, cresceu e, apesar da coleção ainda ter muitas peças feitas de enxovais, já existem outras que são mandadas bordar para a coleção, e o caso das peças mais colorida. Dos motivos bordados foram os laços que se destacaram, surgindo na parte de trás das calças como uma provocação, calças essas com um gancho ligeiramente descaído que nem sempre assentou na perfeição em todos os modelos. Destaca-se ainda a utilização de peças com ponto de arraiolos pela primeira vez numa coleção da Béhen.

Da mesma geração de designers, Hibu apresentou ideias interessantes, com novos materiais, dando o passo em frente na evolução da marca que se distanciou da roupa mais streetwear que tem produzido. No entanto, foram notórios alguns problemas de confeção, sobretudo nas peças que juntam materiais com estruturas têxteis muito diferentes, como os blusões.

O draping de Inês Manuel Baptista e a segurança de Luís Buchinho

Dos mais novos destaca-se o trabalho incrível de drapeados de Inês Manuel Baptista. Uma coleção inteiramente negra, onde o volume e ideia de silhueta foram levados ao extremo, em exercícios que se fizeram de metros e metros de tecido. «Este trabalho demorou cerca de nove meses a desenvolver, e foi desenvolvida no contexto do mestrado que estive a fazer em Florença. O Draping é a minha ferramenta de trabalho. Essa é a forma como eu consigo dar vida às peças. Naturalmente é a técnica que tenho vindo a desenvolver, e mesmo as peças com um fit ajustado são desenvolvidas dessa forma», contou a designer ao Pano Cru.

Encerramos a viagem pela ModaLisboa com a coleção mais completa do calendário: a de Luís Buchinho. Luís trouxe para a passerelle um inverno sem qualquer almejo a verão, onde os casacos foram a peça mais forte. Nos materiais destacam-se os acabamentos desenvolvidos em atelier, com peles texturadas, cortes a laser e plissados. As assimetrias, e contraste de padrões que são uma constante no trabalho do designer, ganham nesta coleção particular destaque, nas mais diversas silhuetas. Destacam-se ainda os dois vestidos assimétricos, com lantejoulas, que encerram o desfile. Uma mistura perfeita entre a elegância dos drapeados e os cortes mais desportivos, numa desconstrução do que geralmente associamos ao vestido de noite.

Luís Buchinho

Uma promessa chamada Maria João Cunha

A norte a Moda começou com os mais novos com a plataforma Bloom. Destacou-se o trabalho de Maria João Cunha com cinco coordenados feitos com uma técnica de favos absolutamente incrível. Manualmente Maria João Cunha, une tiras de tecido criando uma trama de favos que é modelada como uma harmónica para criar volumes e relevo, com o auxílio de estruturas interiores. «Sinto que os favos se tornaram a minha identidade nas minhas coleções. Não quer dizer que vá ser sempre isto porque também se podia tornar aborrecido para o público, mas gostava de ver se existe outra opção, se podia fazer algo mais comercial com esta técnica. Mas não sei… terá de ser um processo de experimentação», conta Maria João Cunha, que apresentou pela primeira vez no Bloom. Este é um trabalho promissor, que me gravou o nome da designer da memória e me deixou muito curiosa para ver o que irá fazer a seguir, com um início tão marcado e tão interessante tecnicamente, pode ser difícil evoluir, mas se acontecer será certamente um dos nomes mais promissores da nova geração.

Marcelo Almiscarado trouxe para a passerelle vários elementos que tem trabalhado na marca desde o início, como as flores, as palavras e os elementos que atravessam as peças. Também os tecidos vêm do passado, porque um dos objetivos da coleção era acabar com os desperdícios que Marcelo tinha no atelier. Nestas matérias antigas nasceram novas reinterpretações de ideias que criam o imaginário do criador. O destaque maior, e provavelmente a face mais visível deste processo, são os malmequeres que antes foram trabalhados tridimensional e nesta coleção ganham bidimensionalidade através de gravações feitas a laser. De destacar são também as peças e detalhes de crochet.

«Cheguei à conclusão de que tenho orgulho do que criei e fiz até agora, que me representa, representada a minha identidade estética e conforme vou avançando, mais definida fica essa identidade estética. Acho que esta coleção resulta muito como uma soma de tudo isso», reflete Marcelo Almiscarado, poucos momentos depois do desfile.

O regresso de Pedro Pedro e a casa de Alexandra Moura

Apesar da surpresa provocada pelos mais novos – que além de ideias interessantes tinham, em muitos casos, uma excelente confeção, fator fundamental para apresentar em passerelle – o grande momento da temporada foi o regresso de Pedro Pedro. Depois de uma ausência de quase quatro anos, o designer regressou ao Portugal Fashion com uma coleção unissexo, pronta para o mercado de hoje. Pela primeira vez Pedro Pedro apresentou em desfile mais modelos masculinos do que femininos, numa coleção de proporções largas, onde os casacos chegam com ombros largos e o calções e calças com um corte baggy.

 «Eu antes fazia mulher mas as peças eram muito usadas por homem, por isso, muito antes de começar a coleção já queria fazer homem. Sentia-me mais motivado para fazer homem, porque era algo que nunca tinha feito, e adoro experimentar. Isso foi um grande ponto de partida e depois a tal ideia de fazer algo universal e comum. Foi fazer o exercício ao contrário: criar coisas para homem que pudessem ser usadas por mulheres» conta Pedro Pedro, ao Pano Cru. Esta escolha de fazer uma coleção unissexo, faz com que cada peças tenha muito mais números o que «em produção também é muito interessante, porque em vez de estares a fazer peças diferentes, tens a mesma peça em muito mais tamanhos, e isso em termos de custo de produção é interessante, é muito mais proveitoso».

Pedro Pedro

Pedro Pedro

A paleta cromática contrasta os tons fortes, inclusive um verde floresceste, com os tons terra e os neutros pretos e brancos. Uma paleta cromática que se mistura em algumas das malhas através de linhas mescladas. As peças de crochet foram feitas à mão, mostrando-se propositadamente assimétricas e inacabadas. Uma coleção que segundo o designer tem uma vibração de «rave de campo feita numa garagem com carros podres e tratores à volta». Um regresso em grande depois de uma pausa que trouxe uma nova visão do mercado a Pedro Pedro, numa coleção que será dividida em vários lançamentos a ser comercializados no site da marca mensalmente.

Alexandra Moura

Outro dos momentos altos da semana de moda, a norte do país, foi o desfile de Alexandra Moura. Ainda às escuras passou um vídeo que continha em si todo o mote da coleção. Estar em casa, o tempo que estivemos em casa, a forma como nos sentimos confortáveis em casa e como podemos escolher o lar, foram algumas das ideias que assaltaram a cabeça de Alexandra Moura. Uma coleção com um processo criativo muito rápido, mas que resultou uma coleção extremamente complexa tecnicamente.

«O vídeo é um suporte para todo o mood e toda a atmosfera. O vídeo acaba por melhorar e acrescentar todo este feeling. Para mim ver um desfile é importante a roupa mas se sentir que tenho uma música, um tipo de luz, um vídeo a suportar todo este conceito a minha recetividade ao tema é muito melhor», explica a designer que garante que este é um formato que vai continuar a replicar.  Mas neste trabalho audiovisual foram os sons que mais nos fizeram viajar para dentro de casa. «O que ouvimos era zapping de televisão, rádio, teclas de telefone, chaleira, silêncio, os pássaros, e tudo isto são sons que eu associo ao que é o conforto da casa», conta.

O desfile abriu com um coordenado roxo, com uma parte de cima com fitas de tecido abertas como se fossem uma cortina recolhida, um detalhe que reapareceu de outras formas ao longo da coleção. Mas a literalidade da coleção não se ficou por aqui, sendo todos os estampados decalcados de casa. «Lancei o mood à equipa de termos um capitonê na roupa, queria imaginar-me vestida de sofá, quero imaginar-me vestida de cortinas e acho que isso era importante para passar graficamente uma mensagem mais objetiva. Os tartans eram as mantas, o padrão de vaca era um tapete, os castanhos de lã fazem lembrar o cobertor antigo que vais buscar para te aninhar», revela Alexandra Moura ao Pano Cru.

Das silhuetas destacam-se as formas oversize, a assimetria, os drapeados e as aberturas de redondas no centro de algumas peças. Das técnicas ficam gravados sobretudo as peças carimbadas manualmente, um processo que obrigou a muita testagem. De salientar ainda que grande parte dos folhos das peças são feitos com desperdícios de corte.

E se Alexandra Moura levou a casa para rua, Diogo Miranda levou a festa numa coleção que parece tirada de uma tela de cinema dos anos dourados de Hollywood. Esta coleção foi a celebração dos 15 anos de carreira do designer, mostrando aquilo que este designer faz de melhor: vestidos de festa. Nesta coleção a exploração da capa como elemento fundamental do design, é o elemento mais interessante e marcante. Uma estética que já tinha sido abordada na estação anterior e que foi desenvolvida para o inverno. São ainda de salientar as misturas de cores inusitadas, que se podem vir a tornar numa das novas assinaturas da marca.

Miguel vieira

Diogo Miranda

E por falar em cor, temos de referir o desfile de Miguel Vieira que utilizou uma gama de cor muito limitada, feita de pretos, azuis e cinzentos. Uma escolha que fez brilhar texturas e materiais únicos que não permitiram que a coleção se tornasse repetitiva. Algo muito difícil de fazer e que merece ser destacado. Além destas coleções, muitas outras desfilaram mostrando propostas para a próxima estação. Escolhi destacar as que me ficaram mais marcadas na memória.

Imagens: DR // ModaLisboa // Portugal Fashion

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