Pedro Pedro: «Dá-me esperança ver marcas portuguesas a fazerem percursos diferentes e comercialmente interessantes»

Bom filho à casa torna, e Pedro Pedro é dos melhores filhos que a Moda portuguesa tem. Foram precisos três anos de espera para o voltarmos a ver, mas foi uma espera que valeu a pena.

Pedro voltou com um sentido comercial mais desenvolvido, graças à sua passagem pela indústria, e com muita vontade de dizer coisas através da roupa. A certeza de que ainda tem histórias para contar levou-o a regressar num momento histórico único, cada vez mais extremado socialmente e culturalmente, mas que acredita ser o caldeirão perfeito para as boas ideias. Uma teoria comprovada pela História, que sempre respondeu às convulsões sociais com muita Arte. Numa entrevista por zoom, porque é a internet que nos faz andar para a frente, falamos sobre estes três anos, mas também sobre o futuro.

O que te levou a parar?

Estava muito cansado. Estava a fazer outra coisa que não tinha nada a ver com moda e que me estava a dar algum conforto monetário, que a moda ainda não estava a dar. Estava muito cansado e achei que antes de estoirar devia parar. Teve ser. Percebi que no meio de tudo, se calhar foi uma boa decisão ter parado e ter parado nessa altura. Parar permitiu que outras coisas acontecessem e se tivesse continuado, com a pandemia, teria sido um desastre.

Foi uma decisão pensada ou foi algo mais pragmático?

As coleções saiam-me do corpo. É sempre um processo complicado e estou sempre a 100%, mas não foi muito pensado. Foi uma conjugação do que estava a acontecer à minha volta, era o passo que fazia sentido na altura.

Nessa pausa surgiu o convite da Decenio. Como surgiu a oportunidade e como foi essa experiência na indústria?

Eu estava feliz com a minha escolha e surgiu a proposta da parte do Júlio Torcato que trabalha com a Decenio. Eles queriam uma visão nova de alguém sem vícios, que nunca trabalhou na indústria, que era o meu caso.

Como foi a experiência de trabalhar na indústria, pela primeira vez?

Aprendi muito. Eu estava integrado na equipa de mulher com outra designer e trabalhávamos sempre em parceria, era um regalo vê-la trabalhar. Ela está há muito tempo na indústria, e a vê-la trabalhar percebia tudo o que eu não tinha. O facto de na indústria as coisas terem de ser muito rápidas, é um processo totalmente diferente. Cada peça tem de ser vista por vários prismas. Eu antes fazia tudo a pensar em desfile, como uma imagem, como o impacto que vai ter e na indústria todas as peças têm de ser pensadas comercialmente, em termos de preço, se vai ser apelativa para o consumidor para quem estamos a falar, se a cor vai ser atrativa, se o fitting é universal abrangendo o maior número de mulheres possível. Existem muitas variantes para pensar, coisas em que eu nunca pensei na vida. Esse processo é muito engraçado para um designer que faz as coisas muito instintivamente e quer contar uma história, e que o ser comercial não é o fator mais importante. Esta experiência fez-me refletir noutros pontos.

O que trouxeste desta experiência para o teu trabalho como designer, sentes que regressaste com outra cabeça, que tens outras preocupações quando crias, achas que tens agora um lado comercial mais presente?

Claro, aliás não sou a mesma pessoa que era. Todas estas experiências nos transformam. Nós agora somos três, o Ricardo está a fazer a parte de comunicação e imagem e a Vanda está a fazer comigo a parte de produção. Mas, apesar disso, temos também todos outros empregos, por isso o crescimento da marca vai ser diferente de se estivéssemos todos a 100%, mas não é possível. O que sentimos todos a fazer a marca é que o processo mais lógico é deixar de ser uma marca pensada de seis em seis meses, mas sim em blocos para vender e ter um crescimento sustentável. Estamos com outra atitude e acho que já se refletiu nesta coleção.

Como vão funcionar esses blocos?

Assim que o site estiver pronto vai funcionar como plataforma de comunicação, mas também vai funcionar com lançamentos. Idealmente será um lançamento mensal de dois ou três coordenados.

E vais manter a sazonalidade dos desfiles?

Em princípio sim, porque essa apresentação não depende só de nós, depende do Portugal Fashion, e sem eles não seria possível. Eles têm essas datas e vamos participar. A questão é não estarmos fixos a isso, o design não anda atrás do desfile. E há coisas de desfile que não vão ser comercializadas, porque são muito fora de preço e não faz sentido. Há coisas que, em termos de produção, exigem tecidos que temos de ter 300m de mínimo, e obviamente não conseguimos atingir esse patamar. Estamos a fazer uma escolha, temos de começar acertadamente e devagar.

Isso quer dizer que na próxima estação é possível que logo a seguir ao desfile já existam dois ou três coordenados disponíveis no site?

A ideia era essa, já para esta coleção. Temos gangas e peças mais leves e a ideia era começar já com vendas online, mas está tudo um bocadinho atrasado. A ideia era ter no site, até antes do desfile, algumas peças – que até podem não entrar na apresentação, mas que achamos importante mostrar online. O site vai funcionar um bocadinho com novidades e coisas que não estão no desfile.

Vais acabar por ter dois universos Pedro Pedro: o desfile onde contas a história e inclusivamente tens peças únicas que não vão ser produzidas, e o site onde tens uma parte mais comercial. Não tens medo que isso seja frustrante para o consumidor, ver peças em desfile que não vão ser comercializadas, ou antes pelo contrário achas que é algo que torna a coleção mais especial?

Eu acho que é um teaser e as peças do site nunca vão ser completamente fora do meu universo, não sou esse tipo de designer. Vamos tentar manter o site muito comercial, mas dentro da nossa estética. É um teaser, é isso que os desfiles são, porque na realidade as pessoas querem peças mais fáceis do que as de desfile.

«Há muitos processos na Indústria que para mim, como designer, se tornaram frustrantes»

Estiveste três anos afastado, o que me moda é muito tempo. O que te fez voltar, o que te deu o clique?

A coisa boa de trabalhar na indústria é aprender muito e reavaliar coisas, reavaliar-me a mim como designer, mas também tem coisas menos boas. A indústria tem muitas condicionantes à criação. Por exemplo tem muitos entraves relacionados com o preço, desde a escolha do material até ao que é possível fazer em termos de design. É um trabalho evolutivo, no sentido em que as peças que vendem mais na estação anterior, têm de ser desenvolvidas na seguinte com algumas variantes.  Há muitos processos na Indústria que para mim, como designer, se tornaram frustrantes.

Precisavas de ter mais liberdade criativa?

Sim, sem dúvida. Percebi que essa era a minha força motivadora.

Como foi voltar a desenhar depois desta pausa?

Foi muito fácil e rápido. Já tinha as ideias todas na cabeça. Eu saí da Decenio dia 10 de dezembro e apanhei covid a 28 de dezembro e estive esses dias em casa. No segundo dia de isolamento abri os blocos e canetas, quando tive alta já tinha a coleção toda desenhada. Saber o caminho que eu não quero fazer, ajuda muito a decidir o caminho que quero fazer.

O que percebeste que não querias fazer?

O que percebi que não queria era trabalhar com limites. Isso era o mais frustrante e admiro muito quem trabalha na Indústria e consegue fazer isso. Eu trabalho com limites, obviamente, mas são outro tipo de limites. Na indústria é tudo muito concreto e definido num padrão, e percebi que não consigo fazer isso, para aquilo que eu quero mostrar e o que quero que as peças sejam. Mas também percebi, por outro lado, que se deve trabalhar dentro de alguns limites. Parece que é um contrassenso, mas é verdade, para as coisas funcionarem é necessário que as coisas funcionem em triângulo com uma boa base de sustentação. É essa base que permite subir para a parte mais de imagem e conceito, mas essa parte é mais pequena. A base que te vai dar sustentabilidade e a possibilidade de investir mais tem de ser maior. E a parte conceptual tem de ser menos, mas tem de existir porque tens que falar com os clientes que acreditam na tua história e se sentem identificados contigo.

Essa base e esses limites têm muito a ver com orçamentos, escolhas de matérias, criares a pensar no preço final da peça?

Exatamente essa parte é importante. Agora, como somos três, é uma decisão a três, o que me retira alguma pressão e alguma insegurança da minha parte.

O facto de trabalhares agora com mais pessoas e na indústria também teres trabalhado em dupla, que é um processo criativo diferente, fez-te olhar para os processos colaborativos, até dentro da marca com outros designers e projetos?

Nós quando falámos em abrir a empresa e o que será o core da empresa, passa muito por ai por parcerias e colaborações. Não faz sentido ser uma marca isolada, quando não é isso que está a acontecer no resto do mundo. Por exemplo, as peças de crochet foram feitas em parceria com uma rapariga que vive deste trabalho e ela própria interveio nas peças. Os brincos também foram uma parceria com uma escultora. A ideia é continuar a fazer isso, com designers gráficos, em princípio vamos fazer t-shirts com um atelier pequeno do porto, que faz serigrafia manual. Esse é o caminho, no fundo é conseguir divulgar ideias, deixar a pessoas criativas expressarem-se.

Essa vontade de te expressares foi também importante na decisão de voltar? Infelizmente trabalhar em Moda de autor, em Portugal, raramente é lucrativo, imagino que isso também te tenha feito ponderar o regresso e te tenha feito pensar se existia espaço para a tua marca no mercado.

Eu acho que continuo a ter alguma coisa a dizer, acho que não há ninguém a contar histórias como eu conto, e a fazer coisas que eu faço. Portanto, eu acho que existe espaço para a marca Pedro Pedro. Também tinha alguns indicadores de fora, pessoas que me continuavam a pedir coisas. Acho que ainda tenho coisas para dizer, mas posso estar enganado.

«Esta é uma boa altura para criar, o mundo está a fervilhar de boas ideias, apesar das coisas más»

Nestes três anos mudou muita coisa, como foi olhar de fora para tudo o que estava a acontecer na moda? Quais são as maiores diferenças que encontras?

O que me fez pensar em voltar, também foi o facto de estarmos a passar um período muito engraçado na Moda. As coisas estão a ficar muito extremadas socialmente, mas isso dá aso a que coisas positivas sejam levadas para a frente. As pessoas estão a ficar muito ativistas, estão a dar importância a coisas que faz sentido dar, como por exemplo a universalidade dos géneros. Apesar de estarmos numa fase política e social muito estranha há movimentos excitantes. Acho que esta é uma boa altura para criar, o mundo está a fervilhar de boas ideias, apesar das coisas más.

Como é que a Moda pode ser espelhos destes movimentos políticos, como isso influencia a forma de criar?

Notasse em muitas marcas que têm uma atitude muito desafiadora e isso é bom. Como em tudo – no cinema, na música – também a Moda deve ser interveniente e fazer-te pensar.

E em Portugal, como viste a Moda nacional nestes três anos que estiveste afastado?

Dá-me esperança ver marcas portuguesas a fazerem percursos diferentes e comercialmente interessantes. Nós infelizmente temos de pensar sempre em internacionalização se queremos vingar. Somos 10 milhões e a percentagem de pessoas que compra moda de autor é muito baixinha. Ver marcas como a Constança Entrudo em plataformas muito boas e muito importantes, e ver Ernest W. Baker que começou há muito pouco tempo e já tem um aumento exponencial de seguidores, etc. As coisas evoluíram bem, as pessoas estão a encontrar a sua linguagem e o seu caminho comercial.

Achas que esta nova geração está mais bem preparada para este lado comercial, até porque já começaram a trabalhar numa era digital?

Há qualquer coisa na internet que faz as pessoas andarem para a frente. E talvez as coisas sejam mais simples do que na minha cabeça. É engraçado ver isso, e é o que faz sentido, a difusão das culturas e dos espaços, e é isso que é internet. Na minha cabeça é mais difícil perceber isso do que na de alguém de 20 anos, talvez. Não faz sentido o tipo de fronteiras que, por vezes, a minha geração põe, mas é difícil mudar isso.

Imagens: @ugocamera / Portugal Fashion

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