Serge Carreira: «Em Portugal está a surgir um novo orgulho na herança do artesanato nacional, o que não acontecia muito no passado»

Head of Emerging Brands Initiative, é o cargo de Serge Carreira, na Federação de Alta Costura e da Moda. Significa isto, que é Serge o responsável pelas iniciativas que promovem os designers emergentes na Semana de Moda de Paris.

Encontramo-nos num desfile de Bloom, no Portugal Fashion, e depois de alguns desfiles lado a lado e trocas de ideias sobre as propostas apresentadas, pedi-lhe para conversarmos com o gravador ligado. O que esperar de um jovem designer, como se entra no calendário oficial da Semana de Moda de Paris, em que é diferente a nova geração de designers, qual é o traço distintivo da Moda portuguesa do resto do mundo, foram apenas algumas questões numa conversa que se podia ter prolongado por horas.

Photo: Diane Pernet

Pegar em marcas emergentes e dar-lhes uma base de sustentação para crescer é, resumidamente, o trabalho do Serge. Como se faz isso?

O meu trabalho é desenvolver as iniciativas relacionadas com marcas emergentes, temos um programa completo para apoiar os designers emergentes em Paris. Paris é uma plataforma global e juntamos marcas que vêm de França, claro, mas também marcas internacionais. O que significa que temos cerca de 60 marcas que apoiamos, e 50 % delas são de outros lugares. Isto permite uma diversidade de perfiles e marcas muito inspirador e dinâmico. A ideia é ter uma diversidade de ferramentas desde o digital, a um showroom durante a fashion week, e dar apoio financeiro às marcas, percebendo o que faz sentido para cada projeto num momento específico.

Esse apoio financeiro é para o desfile ou para desenvolver a coleção?

As marcas, tanto francesas como internacionais, é exclusivamente para apresentação dos desfiles, mas no ano passado também foi para produzir conteúdos digitais como vídeos e fashion films para as plataformas da Paris Fashion Week. Apoio financeiro é para os desfiles e apresentações, ou vídeos. Outro tipo de apoio pode ser variado e em diferentes setores, desde showrooms digitais, a apoio de PR, também temos uma parceria com uma plataforma de logística sediada em Paris, que pode ajudar as marcas a encontrar logísticas profissionais. Este pode ser um ponto de viragem para as marcas, que assim conseguem ter apoio profissional. A ideia é também dar outro tipo de suporte, até na rede de fornecedores, que não é o mais óbvio, nem a dimensão mais glamorosa da moda, mas que é realmente uma das chaves para o sucesso de um projeto.

«Não há nada pior que um designer se juntar ao calendário demasiado cedo e ter de fazer uma pausa por uma temporada, ou algo assim, porque a percepção vai ser negativa»

O que procura nestes jovens designers, quando procura talentos para integrar a plataforma?

O para entrar na Paris Fashion Week é simples, mas muito exigente e seletivo. Existe um comité que é composto pelo presidente da Camara de Moda, dois jornalistas, dois buyers, que analisam todas as candidaturas para entrar no calendário da Semana de Moda. Eles analisam cada candidatura de duas perspetivas: a primeira é a criatividade, e o ponto de vista criativo, é importante saber se existem alguns pontos em comum com os designers da Paris Fahion week, e o segundo elemento é a dimensão comercial do negócio, para ter a certeza que apesar de ainda estarem no início se têm capacidade para uma distribuição global, tanto no digital como em lojas físicas em qualquer local do mundo. É muito importante esta ideia de que temos uma plataforma global. Um jovem designer pode ter um público pequeno, mas esse público é também global.

Então é difícil para um designer pequeno, com uma produção pequena, entrar na Fashion Week?

Sim e não. Mas, às vezes também é bom para os designers esperarem um pouco, explorarem outras coisas e fazerem experimentações nesse tempo. A Paris Fashion Week é muito exigente, o comité é exigente, mas a realidade da semana de moda é ainda pior, porque vão estar competir com grandes marcas, designers globais, com uma comunidade muito forte que os apoia e os segue, por isso é preciso estar pronto. Outra coisa é que quando algum designer se junta ao calendário da semana de moda por um tempo, não temos designers convidados para uma estação apenas. Por isso, os designers devem juntar-se ao calendário apenas quando estiverem prontos. E é por isso que nós nunca ficamos com primeiras coleções, ou projetos muito iniciáticos. Aconselhamos sempre as marcas a que façam off calendar primeiro, eventos, e experimentem outras formas de apresentação e só depois entrar no calendário oficial. Não há nada pior que um designer se juntar ao calendário demasiado cedo e ter de fazer uma pausa por uma temporada, ou algo assim, porque a percepção vai ser negativa.

Numa coleção o que lhe chama a atenção?

Depende realmente de cada designer e projeto. O mais importante é quando sinto e percebo a mensagem com uma silhueta, isso é raro e é algo que requer alguma consistência entre a mensagem e a silhueta, com looks fortes, ousados, significativos. E isso é muito importante particularmente para os jovens designers.

O que é mais importante o conceito ou a confeção num designer emergente?

Ambos, não dá para escolher. Na verdade, os jovens designer não podem comprometer nenhuma das duas coisas. Eu acredito que no passado, podíamos adorar uma excelente ideia e esperar para ver se iria para o lugar certo progressivamente, hoje em dia é tão fácil criar uma marca, muitas pessoas estão a criar marcas, que é preciso ter as duas coisas desde início para ter sucesso.

« Esta geração é muito convicta da capacidade que a moda tem para expressar algo, e fico realmente surpreendido como eles são capazes de forçar as práticas e fronteiras dos conceitos sobre o que é a Moda»

Como acha que vai ser a moda quando os designers emergentes de hoje, forem trabalhar para as grandes casas de moda ou ter as suas próprias marcas com grande sucesso. O que será diferente?

Eu acho que a nova geração, é muito interessante, quando comparada com o passado. Esta geração é muito enraizada, muito pragmática, em várias dimensões desde a manufatura, à qualidade, aos tecidos, é realmente importante para eles. E, por outro lado, eles estão muito ligados e comprometidos com a mensagem que querem partilhar. Esta geração é muito convicta da capacidade que a moda tem para expressar algo, e fico realmente surpreendido como eles são capazes de forçar as práticas e fronteiras dos conceitos sobre o que é a Moda.

Acredita que a Moda vai mudar por causa deles?

Eu acredito que a Moda iria mudar de qualquer forma, a moda é um mundo muito desafiante, porque por um lado temos a indústria criativa de autor, e por outro lado temos a fast fashion. E sobretudo quando falamos de sustentabilidade todos as marcas criativas poderiam ser 100% sustentáveis, ter uma pegada carbónica nula, que isso apenas impactaria 1% da poluição global da Indústria da Moda. Por isso, o que acredito é que os consumidores estão a mudar e isso muda a moda. Outra coisa em que acredito é que os líderes e designers de hoje em dia estão completamente envolvidos com estas novas exigências das pessoas.

Estas novas exigências dos consumidores estão ligadas apenas à sustentabilidade ou existem outro tipo de princípios a ser desafiados?

Tem a ver com a compreensão da sociedade e do mundo. As pessoas estão ligadas e a juventude tem várias referências aspira à sustentabilidade, mas também diversidade, body positivity, igualdade sexual, etc. É um movimento em que tudo está ligado.

A Moda tem também esse papel político e de mudança. Como pode Moda fazer a diferença na sociedade, sobretudo num momento em que existe uma guerra na Europa?

Eu acredito que a Moda é também uma forma de expressar, ou contribuir para um discurso individual e global. Eu acredito que a moda se debate por princípios como o respeito, um melhor entendimento e diálogo entre as pessoas, é uma mensagem que talvez até seja mais forte do que qualquer mensagem política explicita. É por isso, que abraçar um comportamento de generosidade humana, de irmandade, pode também ser uma forma de lutar contra ideais de medo, nacionalismos, e esse tipo de ideologias.

«Por definição o que foi feito no passado está acabado»

Esta é a sua primeira vez numa semana de moda portuguesa, o que está a achar dos criadores nacionais?

Ter uma indústria têxtil que tem crescido e melhorado nas últimas duas décadas contribui bastante, acredito, para criar um terreno que permite que os novos talentos agora trabalhem e se expressem. Por outro lado, é interessante que existem algumas notas do folclore tradicional português, mas sempre que uma perspetiva moderna. Não é apenas uma mímica do folclore tradições. A cultura portuguesa tem sido, até certo ponto, moldada em estereótipos, o que é interessante é ver como alguns destes designers estão a apoderar-se desses estereótipos tornando-os relevantes hoje. Existe uma sensibilidade para o artesanato, que talvez seja algo novo em Portugal, que tinha sido um pouco deixado de lado. Em Portugal está a surgir um novo orgulho na herança do artesanato nacional, algo que não acontecia muito no passado. Sobretudo nos anos 80, Portugal estava muito preocupado com a procura do futuro, e estas técnicas artesanais lembravam o passado, e para um país que procurava a modernidade abandonar esse passado tornou-se natural. Agora estamos num momento em que Portugal é forte em algumas áreas na indústria, também na tecnologia, e isso também acrescenta uma nova visão à cultura e história. E esta nova geração tem referências que vão além dos estereótipos do traje tradicional português, das senhoras vestidas de preto, etc.

As nossas técnicas artesanais são muito ricas sobretudo no que diz respeito aos bordados.

Claro. A nova geração de designers portugueses está a tentar envolver diferentes elementos, tanto da indústria como das técnicas tradicionais, mas também da sustentabilidade – até porque existe uma relação especial com a natureza em Portugal, toda a gente tem raízes no campo, ou numa terra longe da cidade, isso faz com que a relação com a natureza se torne algo específico, e é cultural.

Qual é o seu conselho para um jovem designer português que queira integrar o calendário da Paris Fashion week?

Sejam autênticos, sejam realmente vocês mesmos, não tentem copiar algo que alguém fez no passado, até porque por definição o que foi feito no passado está acabado. Sejam consistentes, mesmo que sejam maximalistas vão ao essencial. Mas particularmente sejam autênticos com o que querem expressar e sejam consistentes na forma como o expressam.

Imagem de destaque: @ugocamera / Portugal Fashion

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: